Jejum e oração aparecem diversas vezes na Bíblia ligados a momentos de busca, consagração, arrependimento e dependência de Deus. Ainda assim, existe muita confusão sobre esse assunto.
Alguns enxergam o jejum quase como uma troca: “Se eu ficar determinado tempo sem comer, Deus terá que responder.” Outros o tratam apenas como uma tradição religiosa.
Mas não é isso que encontramos nas Escrituras.
Jesus falou sobre o jejum de uma maneira que chama atenção. Em Mateus 6:16, Ele não disse “se vocês jejuarem”, mas:
“Quando jejuardes…”
Ou seja, Jesus tratou o jejum como uma prática conhecida por Seus discípulos. Porém, no mesmo ensino, deixou claro que a atitude do coração importa mais do que aquilo que os outros conseguem ver.
Por isso, antes de simplesmente decidir ficar algumas horas sem comer, precisamos entender o verdadeiro propósito do jejum e oração.
1. Jejum não é uma forma de convencer Deus
Esse é provavelmente o primeiro princípio que precisamos entender.
Jejuar não coloca Deus em dívida conosco.
Não podemos pensar:
“Eu jejuei, então Deus precisa fazer aquilo que estou pedindo.”
A Bíblia não apresenta o jejum como uma moeda espiritual utilizada para comprar respostas.
Em Isaías 58, Deus confrontou pessoas que jejuavam, mas continuavam vivendo de maneira injusta. Externamente existia uma prática religiosa; internamente, porém, não havia transformação verdadeira.
Isso mostra que podemos ficar sem alimento e, ainda assim, não oferecer a Deus o tipo de jejum que Ele deseja.
O verdadeiro jejum e oração não tenta manipular Deus.
Ele nos coloca em uma posição de dependência.
2. O jejum nos lembra de nossa necessidade de Deus
Existe algo muito significativo em abrir mão voluntariamente de uma necessidade física para dedicar atenção à vida espiritual.
Quando sentimos fome durante um período de jejum, aquela própria sensação pode se transformar em um lembrete:
“Eu preciso de Deus ainda mais do que preciso disso.”
Jesus declarou durante Sua tentação no deserto:
“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus.”
Mateus 4:4
Isso não significa que alimento seja algo ruim.
Significa que existem necessidades mais profundas dentro de nós.
O jejum nos ajuda a perceber que não somos sustentados apenas pelo que é material. Nossa vida também depende de comunhão, Palavra e presença de Deus.
3. Jejum e oração devem caminhar juntos
Simplesmente deixar de comer não é necessariamente jejuar.
Podemos passar horas sem alimento por diversos motivos.
O que transforma esse período em uma prática espiritual é o propósito.
Por isso, jejum e oração precisam caminhar juntos.
Se você decide jejuar durante algumas horas, mas passa todo aquele período ocupado com outras coisas e não separa nenhum momento para buscar a Deus, provavelmente perdeu o principal objetivo.
O tempo que normalmente seria dedicado a uma refeição pode se tornar um momento de oração, leitura bíblica, reflexão e busca.
E aqui existe algo importante:
não devemos buscar apenas uma resposta de Deus; precisamos buscar o próprio Deus.
Essa diferença muda completamente a maneira como jejuamos.
4. Jesus condenou o jejum feito para impressionar pessoas
Em Mateus 6:16-18, Jesus falou diretamente sobre isso.
Algumas pessoas modificavam sua aparência para que os outros percebessem que estavam jejuando.
Jesus ensinou o contrário.
Ele disse para cuidar da aparência normalmente, de maneira que o jejum permanecesse principalmente entre a pessoa e Deus.
Isso revela uma verdade muito séria:
uma prática espiritual pode perder seu propósito quando passa a existir para receber reconhecimento humano.
Se jejuamos para que alguém pense que somos mais espirituais, já desviamos o foco.
Da mesma forma que Jesus ensinou sobre a oração no secreto, Ele ensinou sobre o jejum que não precisa de plateia.
Existem experiências com Deus que não precisam ser anunciadas.
5. A Bíblia mostra pessoas jejuando antes de decisões importantes
Em Atos 13 encontramos um momento muito importante na história da Igreja.
Enquanto os irmãos serviam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo direcionou a separação de Barnabé e Saulo para uma obra específica.
Mais tarde, em Atos 14:23, vemos novamente oração e jejum relacionados à escolha de presbíteros.
Isso não significa que toda decisão exige necessariamente um período de jejum.
Mas revela um princípio:
existem momentos em que precisamos reduzir o barulho ao nosso redor para buscar a direção de Deus com mais intensidade.
Antes de uma decisão importante, podemos orar:
“Senhor, não quero apenas aquilo que parece certo aos meus olhos. Quero sabedoria para reconhecer o caminho que Te agrada.”
O jejum e oração podem acompanhar momentos assim.
6. O jejum também aparece ligado ao arrependimento
Em diferentes momentos do Antigo Testamento, encontramos pessoas jejuando diante de situações de profunda tristeza, arrependimento ou busca pela misericórdia de Deus.
Um exemplo marcante aparece no livro de Joel:
“Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, e com choro, e com pranto.”
Joel 2:12
Mas observe o que aparece logo em seguida:
“Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes.”
Aqui está o centro da questão.
Deus não estava interessado simplesmente no ritual externo.
Ele queria o coração.
Podemos modificar a alimentação sem modificar nossas atitudes.
Podemos passar horas em jejum e continuar alimentando orgulho, ressentimento, mentira ou falta de perdão.
O verdadeiro jejum precisa nos levar a olhar para dentro.
7. Jejuar também significa aprender a dizer “não” para si mesmo
Vivemos em uma época em que praticamente tudo incentiva a satisfação imediata.
Sentimos vontade e buscamos satisfazê-la.
Queremos alguma coisa e queremos agora.
Nesse contexto, o jejum também nos ensina disciplina.
Por algumas horas, voluntariamente dizemos:
“Eu poderia, mas escolhi não fazer.”
Isso nos lembra que não precisamos obedecer a todo desejo que surge.
Paulo falou diversas vezes sobre domínio próprio e disciplina na vida cristã.
O jejum não produz automaticamente maturidade espiritual, mas pode ser uma ferramenta importante nesse processo quando praticado com entendimento bíblico.
E talvez seja justamente aí que jejum e oração se tornam tão valiosos: enquanto diminuímos algumas distrações, criamos espaço para examinar aquilo que tem governado nosso coração.
Como começar um período de jejum e oração?
Se você ainda encontra dificuldades para desenvolver sua vida de oração, veja também nosso estudo sobre como orar segundo a Bíblia. Entender a oração ajuda a tornar o período de jejum muito mais consciente e centrado em Deus.
Não existe na Bíblia uma única duração obrigatória para todos os jejuns.
Encontramos períodos e circunstâncias diferentes.
Por isso, quem está começando não precisa tentar reproduzir imediatamente jejuns longos encontrados em situações específicas das Escrituras.
O mais importante é ter um propósito claro.
Pergunte a si mesmo:
Por que estou jejuando?
Quero buscar mais a Deus?
Preciso de direção para uma decisão?
Estou atravessando um momento de profunda necessidade espiritual?
Preciso separar um período para arrependimento e oração?
Depois disso, determine um período possível e utilize aquele tempo para buscar a Deus.
Leia a Bíblia.
Ore.
Examine seu coração.
Apresente suas necessidades.
Ore por outras pessoas.
E esteja disposto não apenas a falar, mas também a permitir que a Palavra confronte você.
Se você ainda possui dificuldades para desenvolver sua vida de oração, leia também nosso estudo sobre como orar segundo a Bíblia.
O que não pode faltar no verdadeiro jejum?
Podemos resumir tudo em uma palavra:
Deus.
É possível falar tanto sobre duração, alimento, horários e regras que acabamos esquecendo por que começamos.
O propósito não é simplesmente chegar ao final de determinado período e dizer:
“Consegui.”
Jejum não é competição.
Não é demonstração de força.
Não é uma maneira de provar espiritualidade.
O verdadeiro propósito é buscar a Deus.
Se depois do jejum estivermos mais orgulhosos, alguma coisa deu errado.
Mas se terminarmos mais conscientes de nossa dependência, mais sensíveis à Palavra e mais dispostos a obedecer, então começamos a compreender aquilo que essa prática pode produzir em nossa caminhada.
Jejum e oração: o coração continua sendo o mais importante
Jesus sempre levou seus ouvintes além da aparência.
Não bastava parecer justo.
Não bastava orar diante das pessoas.
E não bastava simplesmente ficar sem comer.
Deus olha para o coração.
Por isso, antes de começar seu próximo período de jejum e oração, faça uma pergunta simples:
“O que realmente estou buscando?”
Se a resposta for apenas aquilo que Deus pode dar, talvez seja necessário rever nossas motivações.
Porque existe algo maior do que receber uma resposta.
Existe conhecer mais profundamente Aquele que responde.
Jejuamos não porque Deus precisa ser convencido a se aproximar.
Jejuamos porque muitas vezes somos nós que precisamos diminuir o barulho, reorganizar as prioridades e perceber novamente o quanto precisamos dEle.
E talvez essa seja uma das maiores lições do jejum e oração:
quando abrimos mão de algo por algum tempo, podemos descobrir novamente quem realmente deve ocupar o primeiro lugar.
