O apóstolo João ocupa um lugar singular no Novo Testamento. Ele esteve entre os primeiros discípulos chamados por Jesus, participou de momentos reservados a poucos, permaneceu próximo da cruz e tornou-se uma das figuras mais importantes do cristianismo primitivo.
Mas João não aparece nas Escrituras como alguém que nasceu pronto.
No início, encontramos um homem intenso, a ponto de Jesus chamar João e seu irmão Tiago de “Boanerges”, isto é, filhos do trovão (Marcos 3:17). Em determinado momento, João quis que fogo descesse do céu sobre uma aldeia samaritana que rejeitou Jesus (Lucas 9:51-56).
Anos depois, porém, seus escritos seriam marcados repetidamente por uma palavra:
Amor.
A trajetória do apóstolo João mostra como conviver com Cristo pode transformar não apenas aquilo que uma pessoa acredita, mas também seu caráter.
1. Quem era o apóstolo João?
João era filho de Zebedeu e irmão de Tiago.
Os dois estavam ligados à atividade da pesca no mar da Galileia.
Marcos registra:
“E, passando dali um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco consertando as redes.”
Marcos 1:19
Quando Jesus os chamou, eles deixaram o pai no barco e o seguiram (Marcos 1:20).
João, portanto, assim como Pedro, veio de um ambiente ligado à pesca.
Marcos 1:20 menciona que Zebedeu possuía trabalhadores contratados, o que pode indicar que a família mantinha uma atividade pesqueira relativamente organizada.
O apóstolo João não começou como escriba, sacerdote ou mestre religioso.
Era um trabalhador comum chamado para seguir Jesus.
Seu chamado ilustra algo que aparece repetidamente nos Evangelhos: Cristo escolheu pessoas comuns e as formou ao longo do caminho.
2. João fazia parte do círculo mais próximo de Jesus
Entre os doze discípulos, Pedro, Tiago e João aparecem várias vezes acompanhando Jesus em situações das quais os demais não participaram.
Um exemplo ocorre quando Jesus ressuscita a filha de Jairo.
Marcos registra que Ele:
“Não permitiu que alguém o seguisse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago.”
Marcos 5:37
O mesmo grupo aparece na Transfiguração.
“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, e a Tiago, e a João, seu irmão, e os conduziu em particular a um alto monte.”
Mateus 17:1
Mais tarde, no Getsêmani, Jesus novamente leva consigo Pedro, Tiago e João (Marcos 14:33).
Isso significa que João testemunhou alguns dos momentos mais extraordinários do ministério de Cristo.
Ele viu a glória de Jesus na Transfiguração.
Viu o sofrimento de Cristo no Getsêmani.
E, mais tarde, seria testemunha da crucificação e da ressurreição.
A teologia de João não nasceu apenas de reflexão abstrata.
Ela foi construída sobre aquilo que ele afirma ter visto, ouvido e tocado.
1 João começa dizendo:
“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida…”
1 João 1:1
Para João, o cristianismo estava fundamentado em acontecimentos reais relacionados à pessoa de Jesus Cristo.
3. De “filho do trovão” a apóstolo do amor
Talvez uma das transformações mais marcantes na vida do apóstolo João esteja em seu caráter.
Jesus deu a João e Tiago o apelido de:
“Boanerges, que significa: Filhos do trovão.”
Marcos 3:17
Lucas 9 ajuda a entender por quê.
Quando uma aldeia samaritana não recebeu Jesus, Tiago e João perguntaram:
“Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?”
Lucas 9:54
É uma reação intensa.
Eles haviam sido rejeitados e queriam julgamento imediato.
Mas Jesus os repreendeu.
Compare isso com o João que encontramos posteriormente em suas cartas:
“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus.”
1 João 4:7
Existe uma transformação evidente.
O homem que queria fogo sobre os samaritanos passou a ensinar repetidamente sobre amar o próximo.
Isso não significa que João abandonou a verdade ou o julgamento de Deus. Seus escritos também possuem advertências muito fortes contra pecado, mentira e falsos mestres.
Mas João aprendeu que verdade e amor não são inimigos.
Em 1 João 4:20 ele escreve:
“Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso.”
O discipulado transformou o temperamento de João.
Isso nos ensina que seguir Jesus não significa apenas aprender doutrina.
Significa permitir que Cristo transforme quem somos.
4. O discípulo a quem Jesus amava
No Evangelho de João aparece várias vezes uma figura chamada:
“o discípulo a quem Jesus amava.”
Por exemplo, durante a última ceia:
“Ora, um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava, estava reclinado no seio de Jesus.”
João 13:23
A tradição cristã identifica esse discípulo com o apóstolo João.
O Evangelho, entretanto, não escreve diretamente:
“Esse discípulo era João.”
Por isso, existe discussão acadêmica sobre sua identidade.
A identificação tradicional com João, filho de Zebedeu, continua sendo defendida por muitos intérpretes, enquanto outros estudiosos propõem outras possibilidades.
Independentemente dessa discussão, a expressão possui grande significado teológico.
O discípulo não é apresentado como:
“aquele que amava Jesus mais do que todos.”
Mas como:
“aquele a quem Jesus amava.”
A identidade está fundamentada primeiro no amor recebido.
Isso combina profundamente com a teologia das cartas de João:
“Nós o amamos porque ele nos amou primeiro.”
1 João 4:19
O amor cristão começa em Deus.
Não amamos para sermos aceitos.
Amamos porque fomos alcançados pelo amor de Deus.
5. João permaneceu próximo da cruz
Um dos momentos mais importantes envolvendo João acontece durante a crucificação.
João 19 registra que, perto da cruz, estavam algumas mulheres e o discípulo amado.
Jesus então diz à Sua mãe:
“Mulher, eis aí o teu filho.”
Depois diz ao discípulo:
“Eis aí tua mãe.”
João 19:26-27
A partir daquele momento, o discípulo a recebeu em sua casa.
A cena é profunda.
Mesmo durante o sofrimento da crucificação, Jesus demonstra cuidado.
E João recebe uma responsabilidade pessoal.
Além disso, o relato mostra a presença desse discípulo próximo à cruz quando muitos haviam se dispersado.
O apóstolo João aprenderia algo que atravessaria toda sua teologia:
o amor de Deus não pode ser separado da cruz de Cristo.
Ele escreveria posteriormente:
“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós.”
1 João 3:16
Para João, a cruz não era uma teoria sobre amor.
Ele havia estado ali.
Ele havia visto.
6. João e a ressurreição de Jesus
Depois que Maria Madalena encontra o túmulo vazio, corre até Pedro e o outro discípulo.
João 20 registra que os dois correram em direção ao sepulcro.
O outro discípulo chegou primeiro.
Quando entrou e viu o túmulo vazio, o texto declara:
“Viu, e creu.”
João 20:8
A ressurreição ocupa posição central na fé cristã.
Jesus não é apresentado apenas como mestre moral, profeta ou exemplo espiritual.
João encerra grande parte de seu Evangelho explicando por que escreveu:
“Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.”
João 20:31
Essa frase praticamente resume o propósito teológico do Evangelho.
João escreve para levar seus leitores a uma conclusão sobre a identidade de Jesus.
Jesus é o Cristo.
Jesus é o Filho de Deus.
E a vida é encontrada nele.
7. A cristologia de João: quem é Jesus?
Talvez nenhuma contribuição teológica associada ao apóstolo João seja tão conhecida quanto a forma como seu Evangelho apresenta Jesus.
O livro começa:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
João 1:1
Depois acrescenta:
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.”
João 1:14
Esses textos estão entre os mais importantes para a doutrina cristã acerca da pessoa de Cristo.
Para aprofundar esse tema, você pode consultar também o Panorama do Evangelho de João, da Sociedade Bíblica do Brasil, que apresenta a estrutura e os principais temas teológicos do livro.
João apresenta Jesus como alguém que já existia antes de Seu nascimento humano.
O Filho entra na história e assume verdadeira humanidade.
Esse ensino foi essencial nas discussões cristológicas dos primeiros séculos da Igreja.
O Evangelho também contém importantes declarações de Jesus conhecidas como os “Eu Sou”:
“Eu sou o pão da vida.”
João 6:35
“Eu sou a luz do mundo.”
João 8:12
“Eu sou a porta.”
João 10:9
“Eu sou o bom Pastor.”
João 10:11
“Eu sou a ressurreição e a vida.”
João 11:25
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida.”
João 14:6
“Eu sou a videira verdadeira.”
João 15:1
João quer que o leitor compreenda que Jesus não é apenas alguém que oferece pão, luz, vida ou verdade.
Ele próprio é apresentado como fonte dessas realidades.
João no livro de Atos
O ministério de João continua depois da ressurreição.
Em Atos 3, Pedro e João vão juntos ao templo.
Pedro e João aparecem juntos em vários momentos do início da Igreja. Para conhecer melhor a trajetória de Pedro, leia também nosso estudo sobre o apóstolo Pedro.
Um homem que era coxo desde o nascimento é curado.
Posteriormente, Pedro e João são levados diante das autoridades religiosas.
Atos 4:13 registra algo impressionante:
“Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se; e tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus.”
Eles eram considerados homens comuns.
Mas havia algo evidente:
haviam estado com Jesus.
Mais tarde, em Atos 8:14, Pedro e João são enviados a Samaria depois que os samaritanos recebem a Palavra de Deus.
Isso é especialmente interessante quando lembramos de Lucas 9.
O João que anteriormente queria fogo sobre uma aldeia samaritana agora participa da expansão do Evangelho entre samaritanos.
A graça havia mudado sua relação com aquelas pessoas.
João nas cartas
O Novo Testamento contém três cartas associadas a João:
1 João
2 João
3 João
A primeira trabalha principalmente temas como:
- comunhão com Deus;
- verdade;
- pecado;
- obediência;
- amor;
- falsos mestres;
- certeza da vida eterna;
- identidade de Jesus.
Um dos textos mais conhecidos afirma:
“Deus é amor.”
1 João 4:8
Essa declaração precisa ser compreendida dentro do restante da carta.
João não está dizendo simplesmente que qualquer sentimento chamado amor representa Deus.
Ele mostra o significado do amor olhando para Cristo:
“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos.”
1 João 4:9
Para João, o amor de Deus é revelado historicamente na missão de Cristo.
João e o Apocalipse
O livro de Apocalipse identifica seu autor simplesmente como João.
Ele escreve:
“Eu, João, que também sou vosso irmão e companheiro na aflição, e no reino, e paciência de Jesus Cristo, estava na ilha chamada Patmos…”
Apocalipse 1:9
Historicamente, a tradição cristã identificou esse João com o apóstolo.
Entretanto, a autoria do Apocalipse também é discutida na pesquisa bíblica.
Alguns estudiosos defendem que o autor foi João, filho de Zebedeu.
Outros entendem que pode ter sido outro líder cristão chamado João, frequentemente chamado de João de Patmos.
O próprio livro não diz explicitamente “João, filho de Zebedeu”.
Por isso, é melhor distinguir aquilo que o texto afirma da tradição posterior.
O que está claro é que o autor se encontrava em Patmos em razão de seu testemunho sobre Jesus e escreveu às sete igrejas da Ásia.
O apóstolo João morreu como mártir?
Diferentemente de Pedro, não existe no Novo Testamento uma narrativa da morte de João.
Uma antiga tradição cristã afirma que João viveu até idade avançada e esteve ligado à região de Éfeso.
Ireneu de Lyon, no século II, associa João à região da Ásia e à comunidade de Éfeso.
Eusébio de Cesareia também preserva tradições relacionadas à presença de João naquela região.
Mas é importante separar as fontes:
A Bíblia: não descreve como João morreu.
Tradição cristã antiga: associa João à Ásia Menor e especialmente a Éfeso.
Tradições posteriores: desenvolveram outros relatos sobre sua vida, alguns com diferentes níveis de confiabilidade histórica.
Não devemos apresentar tradições posteriores como se fossem versículos bíblicos.
O que aprendemos com o apóstolo João?
A vida do apóstolo João é uma história de transformação.
Ele começou como um pescador.
Foi chamado por Jesus.
Quis fogo contra aqueles que rejeitaram Cristo.
Precisou ser corrigido.
Viu milagres.
Presenciou a Transfiguração.
Acompanhou Jesus no Getsêmani.
Esteve próximo da cruz.
Testemunhou o túmulo vazio.
Pregou Cristo juntamente com Pedro.
E deixou uma contribuição teológica que continua influenciando profundamente a fé cristã.
Talvez a transformação de João possa ser resumida assim:
o filho do trovão tornou-se conhecido pela mensagem do amor.
Mas esse amor nunca foi superficial.
João também escreveu sobre verdade, pecado, obediência, doutrina e perseverança.
Para ele, amor verdadeiro não significava abandonar a verdade.
E verdade verdadeira não autorizava abandonar o amor.
É por isso que sua vida continua tão necessária.
O apóstolo João nos mostra que proximidade com Jesus deve produzir transformação.
Não basta conhecer histórias sobre Cristo.
Não basta ter experiências espirituais.
Não basta possuir conhecimento bíblico.
Quem permanece com Cristo precisa, pouco a pouco, parecer mais com Ele.
Principais referências bíblicas sobre João
Chamado:
Mateus 4:21-22; Marcos 1:19-20.
Filho do trovão:
Marcos 3:17.
Filha de Jairo:
Marcos 5:37-43.
Transfiguração:
Mateus 17:1-8; Marcos 9:2-8; Lucas 9:28-36.
Samaritanos:
Lucas 9:51-56.
Pedido de Tiago e João:
Marcos 10:35-45.
Última ceia:
João 13:21-26.
João próximo à cruz:
João 19:25-27.
Túmulo vazio:
João 20:1-10.
Pedro e João em Atos:
Atos 3:1-11; 4:1-22.
Missão em Samaria:
Atos 8:14-25.
João mencionado por Paulo:
Gálatas 2:9.
Teologia do amor:
1 João 3:16-18; 4:7-21.
Patmos:
Apocalipse 1:9.
Referências para aprofundamento
Bíblia Sagrada — Evangelho de João, 1 João, 2 João, 3 João, Atos e Apocalipse.
CARSON, D. A. The Gospel According to John. Pillar New Testament Commentary.
KÖSTENBERGER, Andreas J. John. Baker Exegetical Commentary on the New Testament.
KEENER, Craig S. The Gospel of John: A Commentary.
MARSHALL, I. Howard. The Epistles of John. New International Commentary on the New Testament.
BEALE, G. K. The Book of Revelation. New International Greek Testament Commentary.
IRENEU DE LYON. Contra as Heresias.
EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica.
